Investimento Inicial para Produzir Cerveja é de R$ 500 mil


Processo artesanal faz a diferença

PIERRE BALDEZ
DO JORNAL DO COMMERCIO (16/02/06)
Loiras, negras e ruivas. Cariocas, paulistas, mineiras e gaúchas. Não importa a cor nem a origem, elas começam a surgir de Norte a Sul do País. Pouco a pouco, as cervejas artesanais ganham espaço nos bares que buscam ter como diferencial a bebida mais consumida no Brasil, feita apenas de ingredientes naturais, o que a destaca das industrializadas. Amargas ou com sabores inusitados, as cervejas artesanais são fabricadas por apenas 70 microcervejarias brasileiras, segundo a Associação Brasileira das Microcervejarias (Abmic). Ou seja, ainda há espaço para um negócio que requer investimento de, pelo menos, R$ 500 mil, mais a consultoria para elaboração do produto, que varia de acordo com a fórmula a ser desenvolvida.

Embora não haja uma estatística oficial, alguns produtores acreditam que a produção nacional da jovem cerveja artesanal, há apenas 10 anos no mercado brasileiro, não chega a 1% dos 8,5 bilhões de litros do produto industrial. De acordo com Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), o consumo per capita no País é de 47 litros, fazendo com que o País ocupe o quinto lugar no
ranking mundial de consumo total do produto. Nos Estados Unidos, as microcervejarias surgiram em 1985. Hoje, na terra do Tio Sam, já são mais de 1,2 mil produtores de cervejas especiais.

Dono da Brewtech, consultoria em tecnologia para produção de cerveja, o engenheiro André Nothaft está há mais de 25 anos nesse segmento. O especialista começou a carreira como aprendiz de cervejeiro na Brahma e buscou conhecimento acadêmico na Alemanha, onde estudou o tema durante quatro anos. "Em 1996, quando saí da Brahma, criei uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento e passei a prestar consultoria para clientes de outros países", lembra.

No Brasil, Nothaft é um dos engenheiros cervejeiros mais requisitados pelos bares que querem desenvolver uma bebiba personalizada e pelos donos de microcervejarias. O profissional alerta que o produtor deve fazer avaliação cuidadosa do mercado e do próprio negócio. "Já tive vários clientes que compraram uma microcervejaria e não sabiam o que fazer com ela".

No Rio, o consultor foi o responsável por elaborar e produzir durante dois anos e meio a Devassa, uma das cervejas artesanais mais populares da cidade, que está no mercado desde 2002. Recentemente, ele criou o chope de banana, do bar Banana Jack, em Ipanema, e a cerveja em garrafa Leviana, bebida personalizada do Armazém Carioca, bar e mercearia, que será inaugurado no mês que vem em Copacabana. O cervejeiro assina o chope do Wild Kangaroo, que será lançado também no circuito carioca.

Os sócios do Manuel & Juaquim, que são os mesmos donos do Armazém Carioca, dizem que o chope Leviana, fabricado numa pequena cervejaria na Zona Norte carioca, no quesito vendas já ultrapassou, com 60% dos pedidos, o tradicional chope da Brahma. "A idéia de criar um chope personalizado veio depois que lançamos a nossa cachaça própria", afirma Abílio Fernandes.

Segundo Nothaft, deve-se ter pelo menos três sabores, mas um é imprescindível: o pilsen (a cerveja clara), que está na cultura do brasileiro. O cervejeiro está desenvolvendo fórmulas para microcervejarias do Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus, Piauí e Cascavel, no Paraná. Na Região Sul está instalada a maioria dos pequenos produtores.

O negócio pode ser mais vantajoso para quem produz e vende a cerveja para o consumidor final. Na avaliação do engenheiro, o lucro para esse formato de empreendimento pode chegar a 100%, porém, há a necessidade de construir bem o marketing do ponto de venda. "O bar é uma solução fantástica, desde que se leve o cliente a consumir a cerveja de fabricação própria. Um estabelecimento muito grande pode ser faca de dois gumes. O Dado Bier (funcionava na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, como bar e microcervejaria) é um exemplo de insucesso por ter se concentrado mais no comportamento do público do que no desenvolvimento e na comercialização de novos produtos", exemplifica.
Comercialização deve vir antes da produção da Cerveja
Nothaft diz que o ideal é começar com a comercialização da cerveja e depois que atingir um determinado nível de vendas, se tornar produtor também. Marcelo do Rio, sócio da Devassa, que produziu, em 2005, cerca de 500 mil litros de cerveja, está de acordo com o engenheiro, mas faz uma ressalva. "É importante ter um advogado experiente no assunto antes de começar a terceirizar, porque o dono do bar, quando quer andar com as próprias pernas no quesito produção, se não tiver feito um contrato bem elaborado, fica nas mãos do produtor", alerta.

A Devassa pilsen, black e brown hoje é produzida, nas versões garrafa e chope, por 45 funcionários numa fábrica de 1,2 mil metros quadrados no Santo Cristo, Zona portuária do Rio. Além de vendido nos seis bares da rede, o produto é comercializado em 250 pontos da região fluminense e, desde 2004, é exportado, para alguns pubs de Londres, Inglaterra. Para Marcelo do Rio, apesar de o mercado ter poucos produtores, o segmento da cerveja artesanal não é tão fácil. O empresário acredita que há mais facilidade para entrar num segmento já consolidado. "É um momento difícil para quem pensa em começar, porque o mercado ainda está conquistando consumidores. O cenário estará melhor com o passar do tempo", avalia Rio.

O presidente da Abmic, Marcelo Carneiro da Rocha, no entanto, esclarece que o conceito desse mercado está associado ao regionalismo. "É quase como torcer para um time de futebol. A idéia é fazer o consumidor provar o primeiro chope e perceber que está bebendo algo que é produzido na cidade dele. Nesse negócio, o objetivo não é crescer muito. A Bohemia, que era fabricada em Petrópolis, é um exemplo de uma cerveja pequena que perdeu a sua característica regional depois que foi comprada pela Antarctica",salienta.

Há 10 anos, Marcelo da Rocha é sócio do bar e da cervejaria Colorado, em Ribeirão Preto, São Paulo. Quando começou, eram somente seis microcervejarias no Brasil. O empresário fornece chope para 40 bares da região e de alguns estabelecimentos da capital paulista. Ele orienta a trabalhar com o puro malte. "Na cerveja artesanal o diferencial é não trabalhar com arroz e milho, que são matérias-primas de menor valor e usadas na composição das cervejas industriais, que também levam conservantes", explica. No processo artesanal são usados produtos naturais: água, fermento, malte e lúpulo. A água precisa ter o seu Ph reduzido para eliminar o cloro. "Muita gente dá valor a uma fonte própria, porém, hoje temos água das concessionárias com uma qualidade muito boa", opina Nothaft, que também é presidente do Centro Brasileiro de Cultura da Cerveja (CBCC).
Faturamento Médio Mensal: R$ 57 mil (para um produção de 10 mil a 15 mil litros de cerveja)

Margem de Lucro: produção para terceiros, 10,5%; produtor e vendedor: 100%.

Retorno do Investimento: 30 a 68 meses

Número de Funcionários: 2

Capital de Giro: R$ 100 mil (já incluídos no investimento inicial).

Área Mínima: 40 metros

Risco: Para o professor de novos negócios da Fundação Getulio Vargas, Francisco Barone, o risco é considerado alto para quem pretende ser somente fornecedor, devido ao trabalho de marketing que é preciso executar para abertura de mercado e da margem de lucro, que por ser muito baixa, exige uma produção em grande escala. No caso de ser fabricante e dono do próprio ponto-de-venda, Barone avalia o investimento como de baixo risco. "A eliminação do intermediário e a margem de 100% somados à cultura do brasileiro que gosta do produto diferenciado são os principais fatores para essa avaliação otimista. Existe ainda a possibilidade de se ganhar com a venda para terceiros", complementa.
Paixão pela cerveja motiva empreendedor
O mineiro Marco Antônio Falcone fundou com os irmãos, Ronaldo e Juliana, a Falke Bier há quase dois anos. Depois de trabalhar quatro anos na diretoria de uma multinacional de engenharia em Hannover, na Alemanha, ele voltou a se interessar por um hobby que havia descoberto em 1988: a fabricação de cerveja caseira. Durante o tempo que morou na Europa, Falcone visitou diversas microcervejarias para se aprofundar no assunto. "Quem quer entrar nesse negócio deve ser um apaixonado pela cerveja",sugere.

Em 2004, os irmãos Falcone iniciaram a produção na fábrica instalada em Ribeirão das Neves, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Hoje, a Falke Bier produz 5 mil litros mensais e abastece 10 restaurantes da capital mineira. O empresário acrescenta ainda que quem pretende entrar no negócio deve ter uma reserva de capital para o marketing devido ao pequeno empreendedor ter dificuldade de entrar no mercado por causa dos grandes produtores.

"Deixamos as nossas atividades profissionais e direcionamos toda a nossa atenção para a cervejaria. Na Europa, o conceito de artesanal vem do produto fabricado pela própria família. Hoje, vivemos apenas da empresa", comenta o apaixonado Falcone.

Uma vez por semana, os empresários fazem a entrega pessoalmente com um furgão nos pontos de venda. Os empreendedores também realizam visitas esporádicas para conferir se o produto está sendo servido de forma adequada e esclarecer dúvidas do cliente. "Convidamos o consumidor também para visitar a fábrica, onde explicamos o processo de produção. Essa estratégia tem dado um retorno fantástico", comemora, apontando a Brasil Brau, maior feira da microcervejaria, como excelente oportunidade para quem quer entrar no mercado.