A Mulher e a Cerveja


A cerveja já era produzida, comprovadamente, há 6.000 anos. Talvez o que seja novidade para muitos é que a profissão de cervejeiro era exercida exclusivamente por mulheres. As mulheres que fabricavam uma boa cerveja e que dominavam o processo cervejeiro, acreditava-se possuírem poderes sobrenaturais. Antigamente, as receitas passavam de mãe para filha. A cerveja era antes de tudo alimento, portanto, produzida em casa, fazia parte da nutrição da família. Cabia às mulheres, assim como nos tempos modernos, os cuidados com a produção alimentícia. Esta mulher era a conhecedora da técnica de produzir cerveja que mais tarde é assumida pelos homens.

De acordo com o historiador inglês, Alan Eames, a Deusa Hathor no antigo Egito era reconhecida como a criadora da cerveja, e os antigos Fenícios atribuem a criação da cerveja Ale a 3 mulheres: Osmotor, Kapo e Kalevatar, que combinaram saliva de urso com mel e adicionaram ao processo de fabricação da cerveja. Na Inglaterra, no início do século XVIII, documentos mostram que 78% dos cervejeiros licenciados eram mulheres. Inclusive havia alguns utensílios domésticos, utilizados para a fabricação de cerveja, que eram de propriedade exclusiva de mulheres. Porém as coisas mudaram na idade média, quando os mosteiros começaram a produzir cerveja em larga escala, gradualmente à mulher se tornou menos envolvida com o processo cervejeiro.

Mesmo assim temos nesta época, de produção de cerveja em mosteiros, o nome de uma mulher, a cientista, médica e Abadessa, Hildegardis De Bingen, reconhecida como a primeira cervejeira. Ela viveu de 1098 até 1179, portanto, 81 anos, e naquela época, alcançar esta idade era realmente surpreendente, talvez à cerveja que ela produzia fosse a responsável por esta longevidade. Um exemplo atual é a irmã Doris de uma congregação franciscana, em Mallersdorf, Alemanha. Ela é a responsável pela produção da cerveja “Das Klosterbier”, com uma produção anual de 2.000 hectolitros (200.000 litros/ano).

A revolução industrial transferiu a fabricação de cerveja do lar para a indústria. O homem começou a dominar os ambientes das tavernas, e as mulheres continuaram em casa, fabricando e consumindo cada vez menos cerveja. “Donas de casa cervejeiras” foram substituídas por “cervejeiros profissionais”, e desde então os homens dominam este segmento. Ao longo do tempo, em vários segmentos do mercado de trabalho, as mulheres enfrentaram diferentes obstáculos, que dificultaram, ou até mesmo impediram a sua participação, e isso não seria diferente no segmento cervejeiro. Levou algum tempo, porém a mulher está reconquistando devagar, mas de forma sólida, seu lugar na indústria cervejeira. Já existem algumas mulheres com uma bem sucedida carreira como cervejeiras. E aos poucos mostram que a boa cerveja é independente do sexo do mestre cervejeiro.

Laure Pomianowski, cervejeira chefe na Santa Fé Brewing Co., Novo México, assim como outras cervejeiras ao redor do mundo, acreditam que a forma como a mulher vem sendo utilizada em campanhas de publicidade de cerveja ajudam a limitar a entrada da mulher na indústria, reforçando a idéia de que a cerveja é bebida de homem, feita por homens. Este assunto é no mínimo polêmico, e vem sendo também abordado no Brasil, numa tentativa de reconquistar a dignidade e a igualdade da mulher.

A “coisificação da mulher” tem sido matéria de estudo em todo o mundo e aqui no Brasil não seria diferente. Um exemplo é o trabalho de mestrado de Flávia Jordão, orientado pela Dra. Elêusis M. Camocardi (camucardi-scetur@unimar.br) da UNIMAR, Universidade de Marília - SP, que trata da exposição da mulher em anúncios publicitários de cerveja. O trabalho é resultado de uma pesquisa acerca da exploração da sensualidade feminina no universo da produção de peças publicitárias de cerveja que acabam por reverter o uso que se fazia no passado da figura da mulher. A dona de casa, mãe de família, eficiente dona do lar dá lugar à mulher objeto, sensual, tratada como “coisa”.

A cultura capitalista trouxe a mercantilização do erotismo e da sensualidade, utilizando o desejo e o sonho como principais ingredientes para obtenção do lucro. Desde que as mulheres fizeram a revolução social e reivindicaram seus direitos, a moral e o pudor também têm ganhado novos contornos. E nesses novos tempos, a mulher passa a ser mostrada na mídia de forma mais sensual, em paralelo à sua emancipação social. Acredita-se que a idéia da mulher como um mero objeto de consumo, não só influencia, mas também causa a exploração e o abuso domésticos e sociais da mulher. A doutora e socióloga Berenice Bento, da Universidade de Brasília, em seu artigo "A cerveja e o assassinato do feminino", publicado na Folha de S. Paulo, aborda o tema de forma contundente, e foi aplaudido pela ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire. Mas a política do erotismo permanece, mesmo quando há um apelo oficial contra ele, como mostra a jornalista Fabiane Leite no jornal Folha de S. Paulo, "Cervejarias descumprem veto a erotismo".

Nem todas as campanhas publicitárias do segmento cervejeiro utilizam-se desta desgastada fórmula. As cervejas “Premium” e as “Artesanais” fogem dessa regra, pois prezam pela tradição do processo de produção, qualidade das matérias primas e hábito de consumo, e tratam a mulher como consumidoras. Este nicho de mercado vem crescendo, e com o redesenho da bebida e consumo diferenciado, a imagem da mulher tende a recuperar seu lugar verdadeiro: cervejeira e consumidora.

Kátia Jorge – Mestre Cervejeira.

Fonte: Revista GUIA DA CERVEJA – Editora Casa Dois em Novembro/07